Andrea Pires
sexta-feira, março 18, 2016
Rio Grande do Sul
Ruínas de São Miguel Arcanjo - 7 Povos das Missões - RS
Enfrentamento para sobreviver. Assim é o sul
que tenho conhecido. Lugar
de tantos conflitos históricos e povos tão distintos. O passado aqui é presente
e o enfrentamento está no dia-a-dia das pessoas que ainda carecem lutar para
sobreviver. A geografia, o clima e a história nos mostram que “enfrentar” e “seguir
em frente” faz-se necessário, pois o perigo é iminente. Viver é perigoso. Érico
Veríssimo retratou muito bem esse enfrentamento nas suas histórias romanceadas,
com muita poesia e passionalidade de seus personagens, tão reais e tão criados.
E por falar em passionalidade, eis que a Espanha está no Rio Grande do Sul,
assim como Portugal está no Rio de Janeiro. (comparação minha). O Rio Grande do
Sul começou espanhol e São Miguel das
Missões mergulha nessa certeza. Viajantes amantes de história, tenho que
dizer: foi um presente descobrir esse roteiro. Tomei conhecimento a pouquíssimo
tempo que minha bisavó era índia e meu bisavô era espanhol. O que me causou um
frisson danado, considerando minha paixão pela Espanha, a incessante curiosidade
sobre a história e religiões e a necessidade de entendimento dessas misturas do
Brasil. Eu estive lá. Eu vi.
As Missões
No
Brasil tivemos os Sete Povos das
Missões. O Tratado de Tordesilhas dividia as terras entre Portugal e
Espanha e o Rio Grande do Sul pertencia à Espanha, onde existiram os 7 Povos das Missões. Eles ficavam em São
Francisco de Borja, São Nicolau, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São
João Batista, São Luiz Gonzaga e Santo Ângelo Custódio, todos fundados entre
1682 e 1.700. Essas Missões também protegiam o povo indígena que constantemente
era ameaçado e escravizado pelos bandeirantes portugueses na região, apesar da
região ser da Espanha.
Dos 7 Povos das
Missões, São Miguel Arcanjo está
muito preservado sendo o mais importante sítio arqueológico no estado e declarado
Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, junto com ruínas no Paraguai, Argentina e
Bolívia. A organização urbanística de
uma Missão (em cruz) tem uma lógica social e administrativa impressionantes: A
praça era o ponto central onde havia jogos, reuniões desfiles militares,
discussões e debates. O Conselho dos Caciques (que representava os interesses
de seus grupos indígenas e tomavam decisões conjuntas para o povoado) ficava bem
à frente da praça e da Igreja.
Nesses povoados tinham tudo: cultivo, escola, impressão
de livros e até observatório astronômico. As famílias eram organizadas em casas
privadas e divididas de acordo com a estrutura familiar. O objetivo era evitar
a poligamia. Cada casa abrigava uma quantidade máxima de pessoas. As mulheres e
crianças sem família tinham moradias separadas (para evitar a violência). A rua central era o meio da cruz. A igreja (construída
pelo padre João Batista Primoli) teve somente trabalhadores na construção operários
indígenas.
Cada família tinha seu pedaço
de terra para cultivo e também produzia no cultivo coletivo. Essa ideia de uma
sociedade colaborativa por um tempo funcionou. Mas Portugal e Espanha, sempre
em conflito, decidiram uma partilha. Lá pelos idos do século XVIII, é assinado Tratado
de Madri (1750) que trocava a região dos 7
Povos das Missões para Portugal e da Colônia
do Sacramento para Espanha.
Os Jesuítas espanhóis e indígenas tinham que se
retirar, porém, essa não era a vontade deles. Portugal e Espanha se unem para
combatê-los, culminando a famosa Guerra
Guaranítica que, lamentavelmente, dizimou toda uma história, os índios e deixou
um rastro de destruição e sangue. A Companhia de Jesus foi expulsa de
terras portuguesas e espanholas. Fim do modelo
missioneiro. Meados de 1800 Portugal anexou o Rio Grande do Sul, encerrando o
ciclo espanhol no Brasil e os 7 Povos
das Missões foram incorporados ao território.
Toda essa história me foi contada
pela Vera Lucia Dreilich, uma guia
apaixonada. Caminhando pelas ruínas, ficamos amigas pela história.
SEPE TIARAJU – O Herói das Missões
Ele
ainda vive em todos os cantos da cidade. Sepé nasceu em uma aldeia que foi atacada
quando criança, deixando-o órfão. Os guaranis levaram-no para uma aldeia dos Sete Povos das Missões, onde foi
adotado. Seu avô adotivo era um pajé muito poderoso e ele foi preparado para
ser um pajé, mas acabou se tornando um guerreiro por causa da sua memória de revolta
com os homens brancos. Foi o grande
líder da Guerra Guaranítica (de 1753
a 1756) que teve como estopim o conflito frente à assinatura do Tratado de
Madrid por Portugal e Espanha e a expulsão dos índios da região. Sepé Tiaraju é lembrado grande líder e
guerreiro, que enfrentou Portugal e Espanha e ficou famoso pela frase “Esta terra tem dono”, como resposta à
expulsão declarada. Em 1756, na batalha de Caiboaté, Sepé Tiaraju morreu em
combate, provavelmente numa emboscada. Depois disso, a história e a lenda se confundem:
seu corpo nunca foi encontrado.


