quarta-feira, 28 de março de 2018

A Velha Casa da Ponte – Uma viagem ao coração! – CIDADE DE GOIAS - GO

Com licença da apropriação, mas a cidade de Goiás tá aqui pertinho de Brasília, uma extensão das opções que cercam nosso “quadrado” e por assim dizer, o Goiás é nosso também! E como não dizer que a Cidade de Goiás é em direção ao coração?  Lá tem Cora Coralina, muito amor de mãe, de vó, de mulher!







A Cidade de Goiás fica a 350 km de Brasília, estrada boa, acesso fácil. A viagem em si já e um encontro com a história do centro do Brasil, passando por muitas cidades (ândias) até chegar na cidade de Cora Coralina, uma pérola do cerrado que merece ser “apenas” contemplada com a alma e o coração como tão bem descreveu nossa doceira escritora e poeta.
A cidade foi tombada em 2001 pela UNESCO como Patrimônio Histórico e Cultural Mundial com sua arquitetura barroca do séc. XVIII, pelas tradições culturais e pela famosa natureza da Serra Dourada. Os índios ocuparam essa região, mas com a descoberta das Minas Gerais e das Minas de Cuiabá, Goiás foi descoberta e ocupada pelos Bandeirantes.





A partir de 1748 tornou-se Capitania e capital do estado.  Intensa vida cultural e social, vinculada à capital do Império – Rio de Janeiro, destacando-se no século XX com manifestações importantes de arte e cultura e também conhecida com o ritual da Procissão do Fogaréu, realizada na Semana Santa.
Nos anos 40 a capital foi transferida para Goiânia e isso fez com que a Cidade de Goiás parasse no tempo e mantivesse preservada suas características coloniais. 



No começo chamava-se Vila Boa, depois ficou conhecida como Goiás Velho e hoje é Cidade de Goiás. Chegando na cidade é essa a sensação: “chegar numa vila boa, como se estivéssemos voltando para a casa da mãe depois de muito tempo distante”. As pessoas ainda mantém a ingenuidade do passado, a arquitetura manteve-se intocável e os ares de Brasil Império ainda resistem.
O roteiro que fiz foi de fim de semana, aquela escapada rápida para “desanuviar” a cabeça e fui num período fora de feriado onde a cidade estava na sua rotina normal.

As opções de hospedagens são simples e acolhedoras. Fiquei na Pousada do Ipê, ao lado da Igreja do Rosário. Rustica, às margens do Rio Vermelho, um jardim denso e uma área de lazer que compensa muito a simplicidade dos quartos e aplaca o calorão típico dessa região com uma piscina muito boa. Apesar da simplicidade, a localização, o café da manhã e a área da piscina, compensam o valor um pouco “salgado” da diária.  Tudo perto e fácil de encontrar. Mas, atenção, as ruas são de pedra e requer disposição e conforto para subir as pequenas ladeiras. Tudo é feito a pé.





Saindo da Pousada do Ipê, a primeira parada é na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (1761). Tornou-se a igreja dos escravos porque eles pediam um local para devoção, já que eram obrigados a seguir o cristianismo. Foi demolida e reconstruída em estilo neogótico em 1934 pelos frades dominicanos vindos da França. É interessante observar a diferença de estilos do Barroco para o Neogótico que fica bem evidente nos arcos da fachada. Na escadaria dessa igreja ocorre o encontro dos seresteiros, uma prática conhecida e apreciável por todos que estão na cidade: moradores e visitantes. À meia-noite os músicos se encontram na escadaria da Igreja, afinam seus violões, aquecem as vozes e depois saem em caminhada por toda a cidade.  E tive uma sorte danada: era noite de lua cheia no dia da serenata.





Atravessando a Ponte sobre o rio Vermelho, lá está ela: a Velha Casa da Ponte. Lá, aonde a Dona Cora dizia que a porta deve ficar sempre aberta e o fogão sempre tinha um tacho de doce sendo preparado. Assim, como aquelas casas de interior que a gente passa pelas ruas e vê o que tem dentro, dá uma paradinha, entra, toma um café e tira um “dedo de prosa”. Para que portas?  Agora a casa é um museu que mantém sua história e preserva sua memória.  A Velha Casa da Ponte (1770) foi adquirida pelo trisavô de Cora Coralina - Sargento-Mor, João José do Couto Guimarães - em 1825. Hoje pertence à Associação Casa de Cora Coralina, onde a encontramos com vida nas paredes, na cadeira já desgastada, no quarto pequeno que cabia uma grande mulher e um quintal grande de vegetação variada que a natureza foi esculpindo. Debaixo da casa, no porão, brota uma “bica” de água potável e as palavras de Cora se espalham por todos os lados.

Cora Coralina nasceu Ana (Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas) em 1889, ano que que falece seu pai. Cresceu numa família de mulheres sem ter a figura masculina como provedora e foi com muito sacrifício que sobreviveu, o que marcou sua vida e determinando suas escolhas. Estudou até a 3ª. Série primária. Já moça, se envolveu com movimentos literários, culturais e fundou o jornal “ A Rosa” dirigido só por mulheres. Assumiu o pseudônimo Cora Coralina ao começar a escrever crônicas e ela explica que “Cora”, vem de Coração e “Coralina” vem de “vermelho”. Aos 20 anos muda-se para São Paulo com seu pretendente, casa-se, tem filhos, trabalha como produtora rural e mantém-se na escrita e nas atividades literárias. Foi ativa politicamente e uma das grandes alavancadoras do movimento feminista.
Foi mãe, esposa, intelectual, trabalhadora rural e extremamente religiosa. Já viúva, aos 47 anos, ingressa como missionária na Congregação de São Francisco e se dedica aos pobres. Com 66 anos retorna à Velha Casa da Ponte, sozinha, saudosa e em busca de suas raízes. A Casa estava abandonada e sustentada por vigas para não desmoronar. Lá se instala e publica seu primeiro livro e se reencontra com a vida, recomeça.






Notável, respeitada e querida por todos, era conhecida como Professora da Existência por grandes intelectuais da época. Com apenas a 3ª. Série primária tinha muita devoção à escrita, ao saber, a aprender e seu grande companheiro: o dicionário. Era ele quem a ajudava a compor seus pensamentos no papel. Faleceu em 1985, viveu 95 anos e se dizia doceira, antes de escritora. Vendia doces, e se precisasse, vendia livros.  Sua generosidade corre toda a cidade de Goiás.
Quando voltou para a Velha Casa da Ponte, descobriu que lá vivia uma senhora de rua, que usava o porão da casa para dormir, depois de perambular o dia todo pela cidade:  era a Maria Grampinho. Cora oferece um quarto na casa para Maria Grampinho e tornaram-se companheiras de silêncio e de memórias, cada uma na sua solidão. Maria Grampinho virou um personagem da cidade, transformada em boneca. As bonecas de Maria Grampinho com as cabeças cheias de grampos mostram sua fixação por botões, pregando-os por toda sua trouxa, companheira de peregrinação na rua. E Maria Grampinho virou poesia de Cora.
Da Velha Casa da Ponte, da janela, a vista da cidade. Atravessando a ponte, o CAT – Centro de Atendimento ao Turista e à noite, na calçada, mesas se espalham e a música ao vivo toma conta do lugar. Um grande bar a céu aberto com uma feira de guloseimas para acompanhar a cerveja gelada. A agitação fica até por volta da meia-noite, hora que a concentração segue para a Igreja do Rosário para a Serenata.
Subindo, logo se avista a Igreja Boa Morte e Museu arte Sacra (1779), é o ponto de partida para a Procissão do Fogaréu.  Reúne hoje cerca de 1000 peças dos séculos XVIII e XIX. Tem a maior concentração de obras do escultor Veiga Valle, considerado o “Aleijadinho goiano”. 










Ali em volta, o Palácio Conde dos Arcos e ao redor, pode-se avistar outros monumentos importantes, casarões e bares. A noite é um ponto de encontro da cidade. Tudo isso na praça, em volta do Coreto da cidade onde a parada é obrigatória para tomar um sorvete e descansar um pouco. Desde 1923 funciona a mais tradicional sorveteria da cidade, com picolés artesanais feitos com frutas do cerrado.
Descendo na direção da ponte e margeando o Rio vermelho, chegamos na Igreja São Francisco de Paula (1761), construída sobre uma elevação de onde se tem uma vista maravilhosa da cidade. E sua fachada, além de linda: a simplicidade de São Francisco. Ao lado está o Mercado Municipal com lanche e artesanatos típicos e muitas bonecas de Maria Grampinho.
E no meio do caminho, sempre tem doce! Eles são as relíquias açucaradas que lembram a doceira mais querida – Dona Cora.

E foi assim que num fim de semana voltei com Dona Cora atravessada no coração.


Ahhhh Dona Cora,
Como ousas dizer que está no melhor da vida já beirando os 90 anos?
Como ousa mostrar ao mundo que tudo que tens, te satisfaz?
Como ousas escrever de coração para corações sem pedir licença?
Como ousas recriar tua vida depois dos 60 anos, remover pedras, plantar roseiras e recomeçar?
Ahhh Dona Cora, como ousas viver e ser feliz?





Pois é ....e essa viagem ficou muito melhor com as companheiras de vida: 





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Andrea Pires

Blog Com Salto&Asas, um lugar onde compartilho memórias das viagens que mudaram minha vida, mas também inspiro mulheres que queiram experimentar a vida e sua própria companhia! Planejar, Sonhar e Realizar. Assim é que me sinto com o Mundo nas Mãos! Para contato direto comsaltoeasas@gmail.com

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